12.12.16

CALENDÁRIO do ADVENTO I JOÃO CATALÃO


12 de DEZEMBRO de 2016 . JOÃO CATALÃO
OBJECTO
Histórias do País da Helena

 Quando a Helena montava os seus trabalhos para a exposição Labor e Assombro no Mosteiro de Tibães eu estava lá com ela a documentar o momento para o catálogo. O trabalho que a Helena escolheu fotografar era uma espécie de caixa casa translúcida atravessada pela luz poente da janela. A Helena vestia na altura uma roupa vermelha e o trabalho ganhava outra vida com a sua presença lá dentro. E assim ficou registado no catálogo. Associado a um poema do Nuno Meireles que tinha por título Sem Princípio nem Fim. Foi pela força dessa sua ligação à peça que a Helena decidiu incluir um apontamento de cor no trabalho, deixando lá dentro uma roupa de tecido vermelho. No canto oposto do mesmo corredor, perto da Clarabóia que ainda tinha exposta as ripas de madeira, havia uma intervenção minha. Um cortiço antigo de abelhas onde chegava, vinda do tecto, uma fita azul celeste. Só agora me dou conta da correspondência entre esse azul e esse vermelho. No meio do corredor, no chão, a Helena projectou um vídeo com imagens do mar alto, alternando tempestades e calmaria. Uma referência ao voto que os monges faziam de atravessar o oceano e ir ao Brasil, conforme expresso no brasão da ordem. Para transpor essa intervenção poética decidimos que seria necessário esperar que as águas baixassem e surgisse inesperadamente no loop a areia breve de uma praia. Chegamos a fazer isso, ritualmente, durante uma visita guiada. O azul para a Helena era a representação do transcendente. Foi por isso que numa das celas do mosteiro a Helena instalou uma luz azul rodeada de papéis translúcidos a que se acedia através de uma escada. Eu também tinha uma cela própria no mesmo corredor. Uma cela geminada. Habitar o mosteiro era aliás o mote da exposição expresso no subtítulo: Percursos habitados no espaço monástico. Antecipava assim a chegada anunciada das irmãs que agora lá vivem e cuidam do espaço do restaurante e da hospedaria. Mais recentemente foi a Helena que me ajudou a montar a exposição Um Risco Azul a Granada na Sala do Recibo. A Helena sempre teve, como eu, uma relação muito particular e misteriosa com Tibães. Nessa exposição havia um berço que se espraiava em fios azuis pela vastidão da sala a que chamei Um Berço Muito Grande para o Mar. Foi dançado depois no Museu dos Biscainhos, o primeiro local em que trabalhei com a Helena Santos. O título do berço é o fragmento de um poema do Daniel Faria. O poema chama-se Histórias do País da Helena. Não podia ser mais apropriado. Neste ano de 2016 em que a Helena partiu o azul é a cor das Ercílias. As Ercílias são as montanhas imaginárias desenhadas pelas revoadas dos pombos-correios. Em 2017 as anilhas, e as Ercílias portanto, vão ser vermelhas. Já liguei para a Sociedade Portuguesa de Columbofilia. Disseram-me a brincar que era por causa da vitória do Benfica no campeonato mas eu sei que é por causa da presença que a Helena deixou em Tibães. Quando comecei o projecto da Clarabóia organizei a primeira exposição com os funcionários e os residentes da Casa do Professor. A exposição chamou-se Marcadores de Viagem. Cada pessoa da casa foi convidada a escolher um objecto para ser o ponto de partida para a narrativa de uma memória. A acompanhar o expositor antigo carregado com os objectos marcadores de viagem acrescentei um conjunto de quadros de colmeia. Cada um com molas abelhas de madeira e uma mola abelha rainha colorida. Havia abelhas rainhas de várias cores. O meu objecto era um filme super-oito que encontrei no lixo em Angola. O filme tinha uma pequena peça amarela de plástico a prender a película. Como as molas abelha rainha nos quadros de colmeia. Em relação à luz o vermelho e o azul formam uma conjunção de aproximação e afastamento. A luz emitida pelos objectos que se aproximam sofre um desvio para o azul. A luz emitida pelos objectos que se afastam, sobre um desvio para o vermelho. A conjunção entre o azul e o vermelho é uma forma de respiração. O vermelho é inspiração, é esforço. O azul é expiração, é espontâneo por diferença de pressão. Geminar o azul e o vermelho foi naturalmente a minha primeira ideia para contar esta história de conjugação de percursos em Tibães. Depois decidi geminar em vez disso o azul e o amarelo. A geminação do azul e do amarelo é para mim um pacto essencial. Um casamento entre o labor e o assombro. Entre um terreno que acredita, e recebeu a graça dessa crença, e o transcendente. Para mim o casamento entre o labor e o assombro foi selado no Rio de Janeiro. Este ano no jardim dos Biscainhos houve uma figueira que deu uma sombra amarela. Levei uma fotografia da figueira com a sombra amarela para a Helena quando ela estava internada. Tirada com a minha câmara que sente a terra a tremer como o Pedro Orce no livro Jangada de Pedra de José Saramago. Foi o tema da última exposição em Tibães que a Helena me ajudou a montar. Levei a fotografia à Helena para lhe dizer que ela era uma pessoa muito especial. Uma pessoa com uma sombra amarela. Poucos souberam que o dia do funeral da Helena Santos coincidiu com o dia do meu aniversário. Essa sincronização para mim teve uma significação particular. Eu sei que a Helena continua a pintar e a fazer os seus trabalhos delicados cheios de força e de luz. Eu sei que ela continua a gostar de deixar trabalhos no chão para poder impregna-los de ritmo e presença ao andar e passar-lhes a pé por cima. Mas sei sobretudo, como quem a conheceu de perto, que a Helena há-de vir sempre buscar os instantes que viveu com aqueles óculos cor-de-rosa com que nos mostrou o mundo. 

Objecto [Quadro de colmeia, 60 molas de madeira e 1 mola geminada azul e amarela]
39,5 cm X 29,5 cm
587 gr.

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