23.12.11

*23 de dezembro*

autora. Ana Rita Cunha
título. Lê a Lã



[técnica. costura e bordado]




Bordar palavras bonitas sabe-e bem... escrever com fios... fica a mensagem de lã para o inverno que se avizinha... Brilha, sonha, ama, dá, floresce.


texto de: Ana Rita Cunha

22.12.11

*22 de dezembro*

autor. Ricardo Lopes
título. Que haja música no advento


[técnica. olaria e modelação]

Que haja música no advento
Faça-se ouvir pelo ano fora
Encontres ou não o que procuras, que haja música no caminho,
Vás a pé ou de bicicleta, 
parado também se sente o sol no seu solene e circular andamento.
Música no olhar e no reflexo, música no balanço do corpo, valsa ou salsa,
gingar é bom …
Música para embalar a tristeza, ajuda quando não puderes sair do momento, como a água que alterna compassos nos telhados e guarda-chuvas das nossas histórias.
Que ecoem colcheias nos colchões,
notas amantes em todas as línguas e direcções , vivam os abraços e os amassos de corpo inteiro.
Que haja música nos silêncios da memória de quem já partiu, será sempre nossa a sua saudade, a verdade é que nunca chegam a partir, levam e  deixam um bocadinho de…
Música também para quem ainda não chegou e aguarda no burburinho harmónico das barrigas ressonantes e seus habitantes, essas ainda futuras crianças que ouvem  JJJohnson ou  Zé da Velha debaixo de cada pedra,
Música para os abandonados, indigente é quem não sente , 
escutem  a música que os pássaros nos dão de graça e sem hora marcada, patrocinando o nosso articulado silêncio, a música que os apaixonados ouvem em uníssono, 
a música dos nossos passos, embalando a Vida como o mar faz às suas estrelas, 

e o vento aos seus moinhos, 
por aqui, por ali  e em todos os seus caminhos
morna samba ou fado
haja música em todo o lado…
que o ano não será o mesmo sem a que ouvirás nesse dia..

texto de: Ricardo Lopes

21.12.11

*21 de dezembro*

autora.  Ana Caldas
título. A porta do mistério



[técnica. composição digital com imagens de peças de joalharia]


"A porta do mistério" pertence à minha colecção de Joalharia de 2009, uma peça singular, umas das minhas preferidas, desenhadas e produzidas por mim, em prata; pode ser um pendente, um alfinete, o que quiserem, cheio de revelações e desejos. 

Para esta "árvore do advento" coloquei esta peça na órbita do mundo, juntamente com os brincos/aeronaves "Entardecer" sobrevoando a majestosa via láctea.

Atravessar esta porta é o grande desafio para todos nós, agora e sempre, significa derrubar toda a dúvida e dispersão, aplicar toda a multiplicidade, ao mesmo tempo adquirir uma verdade própria, uma certeza, uma mestria no mundo. 

Que assim seja e sejamos muito bem vindos! 

texto de: Ana Caldas

19.12.11

*19 de dezembro*

autora. Sara Moreira da Costa
título. Quatro estações




[técnica. recorte em papel]

Queria que as quatro estações voltassem, vivas, esplendorosas nas suas diferenças que tanto as distinguem e nos enfeitiçam... Queria que as alterações climáticas, provocadas pela ganância e inconsciência de uma má gestão de recursos, não privassem o que resta da minha vida da percepção de uma natureza em mutação e em constante renovação. 

Gosto das estações plenas, do Inverno e do Verão.
É bom sentir o frio do Inverno no olhar fustigado pelas chuvas gélidas, pelas cores azul-cinza que parecem transportadas pelos dias ventosos que atravessam árvores despidas. Encanta-me pensar que é este o "habitat" natural do tempo de Natal em que a magia das bolas vermelhas do azevinho se vem juntar ao brilho dos enfeites artificiais de um pinheirinho que representa o eterno retorno ao aconchego da infância. è o tempo do gato dormente ao quente.

O Verão revela-se pela intensidade do calor que nos ofusca a vista e contrai a pele... As cores são intensas, amarelo, brancos luminosos, vermelhos, azuis cobalto e celeste, maçãs e pêssegos, a andorinha a esvoaçar e o gato novo, que já aprendeu a trepar, fica empoleirado na macieira a observar...

Encantam-me as estações intermédias...

O Outono aparece como uma explosão de coloridos "fauves". Vermelhos, laranjas, amarelos, castanhos tomam conta do nosso olhar. As folhas parecem estar a chamar pelo vento que, pouco a pouco vai despindo as árvores... As bolotas dos carvalhos prometem fantasias e enfeites e a andorinha despede-se em direcção ao Sul. O gato aproveita os raios ainda mornos de um sol dourado.

Na Primavera a natureza cresce com os dias. À música do vento nas frágeis folhas das bétulas, junta-se o canto dos pássaros na construção dos ninhos e as borboletas a saltitar. As árvores gomam, os verdes são intensos e os azuis são suaves. Há uma explosão de aromas, as flores despertam e pontilham a natureza com as cores do arco-irís. A andorinha está de regressa e o gato está expectante...

texto de: Isabel Viana

18.12.11

*18 de dezembro*

autor. José Machado
título: Profanas pantufas


[materiais: pele, linhas, lã sintética]


"No movimento singular de um pequeno pé profano
vislumbro a graça profunda de um corpo que dança..."




peça para venda: preço.40€
mais informações: zemachadomail@gmail.com

17.12.11

*17 de dezembro*

autora. vÂniA kOstA
título. tenho um poema na minha mão...

[técnica. composição com "objectos memória" (espelho, desenho a tinta da china, pássaro, lápis, ornithophone) sobre cartão pintado e costurado]


na mão poderia ter um bilhete de comboio... como tantos que guardei. viagens que fiz. lugares onde gostaria de voltar. hoje, em vez disso, ao abrir os olhos tenho na mão pequenos objectos. olho-os de novo. e tal como esses bilhetes outrora me levaram até lugares, com estes mesmos objectos viajo. olho de novo para eles. toco-lhes com os olhos das pontas dos meus dedos. sinto-lhes o toque e a essência de que são hoje feitas as suas formas acarinhadas pelo tempo. as suas silhuetas ganharam um significado especial pelas histórias que senti e vivi, ora pelas memórias que um dia me foram passadas pela mesma voz que continua a contar-me histórias. a partir desse instante, passaram a ser também minhas, essas memórias. e desejo que muitos instantes assim possam continuar a existir e a acontecer. um testemunho passado de geração, ora na luz quente de uma lareira, ora debaixo da sombra de uma laranjeira. e um dia, quem sabe, estarei também eu nesse mesmo lugar. a dar continuidade a estas viagens. e tal como o ciclo de vida de uma simples semente, esta “semente memória” possa germinar e crescer. que possamos, também nós, depois de tanto tempo, continuar a existir. na eterna esperança de estarmos presentes junto de quem amamos mesmo que nunca os possamos vir a conhecer. 
e através destes objectos, desejo encontrar esses lugares e voltar a sentir, de todas essas vezes, próxima das raízes da minha mão. das linhas que se interligam e de que sou escrita.
tenho um poema na minha mão. 
sou o poema da minha mão.
numa, tenho estes “objectos memória”. na outra, guardo desejos. desejos para amanhã. para o dia a seguir. para o outro dia que há-de vir. respiro fundo. junto as mãos. procuro fundir estes desejos nas silhuetas destes objectos. estes aqui que hoje têm casa própria onde morar e que com eles continuo a encontrar o caminho para esses lugares por onde viajo e me encontro...
[um espelho que reflecte uma memória. um eu que continua a existir e que se reconhece na forma que o tempo, na sua beleza de existir, abraça e cuida. e uma luz que se projecta até um lugar. que se difunde em cor por todo o lugar. em todas as formas ou superfícies que habitam cada um desses lugares. lá fora e cá dentro. um pássaro que veio voando de terras longínquas. um lápis arco-irís que guardo para me ajudar a colorir os dias cinzentos que também têm o seu lugar para existir. um ornithophone pertencente ao avô e que vivia num dos seus bolsos. com ele o avô ensinava os pássaros a cantar. e com ele continuo eu a entender a linguagem dos pássaros. trazem-me histórias. levam outras. contam-me segredos. guardam os meus segredos. e espalham a música do mundo que nos habita. e girando este pequeno objecto inicio o cantar secreto dos pássaros... ]

texto de: vÂniA kOstA